
Concordo com quase tudo o que diz aqui o Hugo Mendes sobre os rankings de escolas e a suposta superioridade dos colégios particulares sobre as escolas públicas. Duas notas contudo:
1. No fim, o Hugo Mendes diz que a "transparência" dos rankings (aspas dele) servem essencialmente para «vender o nome de alguns colégios». Eu acrescento um fim menos mercantilista e mais ideológico: servem para vender a ideia dos vouchers.
2. O Hugo Mendes deverá não só ter estudado em escolas públicas como cheira que tenha lido muito artigo público (leia-se: estatal) sobre educação. O termo «mobilização cognitiva dos pais» encerra uma tese de doutoramento sobre ciências de educação. Suma cum laude, já!
quinta-feira, 30 de outubro de 2008
Rankings de escolas
terça-feira, 28 de outubro de 2008
Futebol 3

Já que estamos nesta de Cristiano Ronaldo, refira-se que os prémios que ele ganhar esta época são sobejamente merecidos. Deu uma Liga Inglesa e uma Champions League a um Manchester United pouco mais que médio sem ele. Pelo meio foi o melhor marcador europeu (no sistema de pontos) a partir da posição de extremo e repetiu a graça na Champions League. Ainda conseguiu, ao pé-coxinho, marcar um golo e estar em mais dois ou três durante o Europeu. Numa época qualquer normal, bastava-lhe metade do ano para arrebatar os títulos todos.
E esta é uma época normal, especialmente porque ninguém se distinguiu na selecção espanhola que foi campeã europeia. O único que lhe faria mossa seria o Fernando Torres, mas o Liverpool ficou em quarto e foi chutado da CL. Desta forma, entreguem ao rapaz os prémios todos que ele merece.
Ainda assim não se julgue que ele é o melhor. Neste momento, o melhor do mundo, aquele que mais decide, é o Messi, quer se queira quer não se queira. O chato é que tanto anda ligado como desligado, ao contrário do Ronaldo, a quem basta um sprintezinho para deixar a equipa toda em sentido e convergir sobre ele todo o exército nacional do país onde esteja a deslumbrar a bola. O que vai decidir a contenda sobre quem é o melhor jogador da actualidade vai ser o departamento médico e de preparação física do Milan. Porque no dia em que Ronaldo de Assis Moreira, vulgo Ronaldinho, recuperar a forma que teve no Barcelona, esqueçam a eleição de melhor do mundo para o que resta desta década. E depois esqueçam também a próxima década, que será era de Messi.
Ronaldo poderá ser um dos grandes da história do futebol, mas tem um azar: vive num período em que dois dos mais talentosos futeblistas de sempre passeiam a sua classe. Ronaldo poderá já ser o melhor jogador português de sempre, mas Ronaldinho e Messi poderão também já ser os segundos melhores jogadores de sempre do Brasil e da Argentina. E nisto de talentos, ser o segundo melhor daqueles países fica a léguas de ser o melhor deste rectângulo.
Futebol 2

Esta coisa de o Cristiano Ronaldo arrebatar prémios é algo de ridículo. É verdade que o rapaz teve uma época para recordar - e uma pré-época para esquecer - mas nem por isso deveriam esperar que ele ficasse contente com os prémios da FIFPro. É assim um bocadinho como conquistar a Merche Romero quando tem a tal da Nereida Gallardo (neste caso a Bola de Ouro) como prémio desejado. Nesta comparação, temos que a Paris Hilton, que se terá atirado ao rapaz durante uma festa de Verão, será o Real Madrid. Muito chique, com muito dinheiro, mas essencialmente insuportável.
Futebol 1

Juro que o mundo do futebol português está estranho. Não é que o Benfica está à frente do FC Porto e que os adeptos tripeiros agora fazem esperas aos jogadores? Isto não acontecia antes ao contrário? É certo que eu me lembro de um Benfica, quando eu era pequenino, que ia dando umas malhas de porrada aos adversários, mas isso era quando ainda jogava um Manniche com dois "enes", o trinco era um tal de Stromberg e o ponta de lança se chamava Filipović e era ainda jugoslavo. É verdade, sou velho.
sexta-feira, 24 de outubro de 2008
Orçamento móvel
Raramente concordo com o João Gonçalves, mas às vezes tem que ser:
«O orçamento é um falso tema. Porque, a cada dia que passa, o orçamento altera-se».
quarta-feira, 22 de outubro de 2008
O celeiro estatal

Com isto da crise, surgem os que se vangloriam da derrocada do capitalismo mas também aqueles que vêm defender o liberalismo e o modo de vida capitalista que, dizem nos sustentou o crescimento nas últimas décadas. Um deles, o mais ruidoso, na minha opinião, é Rui Ramos, que escreve no Público às quartas (ie, hoje).
Quanto ao sustento do modo de vida capitalista, ler este post do João Pinto e Castro que sabe muito mais destas coisas que eu e justifica habitualmente os seus textos (até escreve no Jornal Económico, isto há-de ter o seu valor).
Mas o engraçado é o texto de Rui Ramos. Ele tem andado a insistir na mesma tecla, crónica após crónica (está visto que não é pago de acordo com a originalidade), desde há uns dois meses para cá: o capitalismo sustentou o nosso modo de vida (graças ao endividamento) e só temos que agradecer por isso e isto são percalços que nós, por termos sido beneficiários, teremos agora que sofrer na pele (como se não o soubéssemos). Hoje, no entanto, mudo o disco um tudo nada ao falar na Islândia e estabelecer uma comparação com o nosso país.
Grosso modo, diz Rui Ramos que não nos devemos rir da Islândia porque, se este país está a sofrer mais com a crise financeira, é porque também beneficiou muito mais anteriormente. Se Portugal não é muito prejudicado é apenas porque não soubemos cavalgar a onda anterior e prosperar com ela.
Para além do ridículo de usar os exemplos do Burkina Faso para sustentar a tese (eu poderia usar o exemplo chinês, mas creio que seria acusado de desonestidade intelectual), o Rui Ramos tenta reduzi-la aos extremos. Isto é, é mau, mas não fazer aquilo seria bem pior. Ou seja, é o mesmo que dizer que comer comida fora do prazo à bruta pode dar uns problemas de estômago de tempos a tempos, mas não comer nada é pior. O problema desta argumentação é que finge ignorar que há quem tenha alimentação saudável. No caso dos mercados, que se poderiam ter tido outros cuidados. Não se advoga o fim dos mercados (há quem o faça, mas esqueçamos por momentos a Soeiro Pereira Gomes), antes que estes sejam mais equilibrados.
Por outro lado, esta argumentação foca-se tanto no longo prazo que finge que o curto prazo não interessa. Sem dúvida que o sistema até pode ir permitindo o crescimento económico, mas se isso suceder à custa de sofrimento profundo nos períodos de convulsões (que os liberais afirmam serem inevitáveis e que não devem ser tocados), penso que não vale a pena. O luxo passado e futuro não fazem esquecer a miséria actual. Dá a ideia de um país onde a produção de cereais é frequentemente abundante mas onde, num período de três anos consecutivos, decresce brutalmente. Antes e depois dos três anos há abundância. Durante os mesmos há fome e malnutrição.
A receita neoliberal é equivalente a dizer que a malnutrição é um mal necessário. Pessoalmente penso que é obrigação do Estado abrir as portas do celeiro para matar a fome aos seus cidadãos.
Há dias de boas notícias

Aparentemente, segundo leio no Público, roubaram de casa de Miguel Sousa Tavares o portátil onde ele tinha duas novas obras "literárias" que andava a escrever. Bendita alma que o fez. Mas claro que o nosso amante da Natureza - desde que apreciada apenas por ele num jipe e com caçadeira ao ombro enquanto fuma uns charutos - já disse que tem suspeitas de quem o fez. Valha-nos a presciência para a detecção do criminoso e a falta dela para fazer uma daquelas acções muito modernas que se chama... como é mesmo?... Ah sim, backups!!!
PS - à alma caridosa que roubou o portátil, toca a fazer rapidamente uma formatação ao bicho. Nesse sentido o ideal é fazê-lo com a instalação de um novo sistema operativo. Aconselho o Millenium Edition.
PPS - noto que o Valupi já fez piada semelhante. Copiador!
quinta-feira, 16 de outubro de 2008
Técnica, táctica ou nenhuma delas?

Depois da ida de Scolari, que acompanhei com um suspiroso «até que enfim!...», veio Carlos Queirós. Confesso que gosto de Queirós. Gosta de futebol bonito, de dar liberdade aos jogadores e ainda é o responsável pelos únicos títulos que Portugal alguma vez conquistou em que competição fosse.
Só que Queirós não é um grande treinador. Tem coisas em que é superior a Scolari: tecnicamente (muitíssimo superior) e tacticamente (apenas algo superior). Já em termos de motivação e criação de espírito de grupo é inferior, muitíssimo inferior. E em leitura de jogos não sei, mas Scolari sempre fez moficações que davam bons resultados, fossem disparatadas ou não. A grande vantagem, aos meus olhos, que Queirós possui sobre Scolari é, simplesmente, não ser Scolari. Não é arrogante, parvo, ostensivo, etc e tal. É outras coisas, mas não é Scolari e, depois de seis anos de Scolari, eu já andava farto de Scolari.
E a qualificação não começou mal. Queirós chamou alguns novos jogadores, aproveitou outros de Scolari, largou uns quantos que Scolari acarinhava mesmo que fossem o maior desastre da história do futebol mundial (sim, Ricardo) e colocou-os a jogar bem. Mesmo bem. O jogo contra a Dinamarca deveria ter dado goleada das grossas, tantas foram as oportunidades perdidas. Mas não deu e quem marca mais golos é quem merece ganhar.
Até ontem, mesmo depois do empae contra a Suécia, isto não me preocupava. Scolari passou dois anos a perder jogos na preparação para o Euro2004. Tivesse sido por qualificação e cheira-me que não estaria hoje no Chelsea. Na última qualificação, para o Euro2008, empatou em casa contra todos os concorrentes directos, potências como a Sérvia, Finlândia e Polónia e fez o mesmo fora, com a excepção do jogo contra a Polónia, que perdeu. Queirós não estava a fazer nada de diferente até ontem.
Só que ontem fê-lo: empatou contra a Albânia. Sim, a Albânia. Não importa que faltassem Deco, Simão, Maniche ou Bosingwa. Empatou. A zero. Nem um golo conseguiu. Até aquele Portugal de 87 do Jorge Plácido conseguiu marcar a Malta. Este jogo não deu para isso.
Não vi o jogo, porque pura e simplesmente não consegui. Mas ouvi na rádio e li o que se ia passando. E ia pasmando. Queirós ainda julga que atacar significa ir metendo mais e mais avançados. Jogar com Nani, Crisnaldo, Quaresma, Nuno Gomes e Hugo Almeida ao mesmo tempo é ridículo. Alguém lhe diga que a arma dos nossos extremos é a aceleração e a velocidade. Mais gente em menos espaço retira essa hipótese. E manter dois defesas centrais até ao fim de um jogo em que a Albânia joga com 10 e não ataca soa a ridículo.
Não sei realmente o que pensar disto. Scolari não me dá saudades nenhumas, sinceramente, antes a não-qualificação. Só que Queirós não dá confiança nenhuma como seleccionador. Parece ser um excelente assistente (o título europeu do Manchester United é tanto dele como de Ferguson), mas não dá como técnico máximo. Pergunto-me se não iremos a tempo de emendar a mão. Seria boa oportunidade para pôr a andar o Madaíl e trazer o Manuel José para treinador. Mas Queirós deveria ficar. Como responsável técnico ou algo do género. Aquele tipo que orienta os treinos e cria um sistema comum a todas as selecções. Assim aproveitar-se-ia aquilo que ele sabe fazer. E de Manuel José o mesmo, especialmente aquele olhinho táctico.
Em alternativa, deixe-se a equipa quietinha sem treinador. Tragam-se apenas o Figo, o Rui Costa e o Fernando Couto para umas palavrinhas antes dos jogos e pronto. Era o melhor que se fazia. Com tanta qualidade ali ao dispôr, mexer tacticamente é estragar. Como Queirós tem demonstrado.
terça-feira, 14 de outubro de 2008
Lentes cor de rosa

No início dos anos 80 ainda andava eu para fazer 5 anos e não sabia ler nem escrever e os meus conhecimentos sobre habitação resumiam-se ao facto de ver o Astérix com casa própria e o Lucky Luke longe da dele. Para o fim desses anos 80, altura em que os meus pais tinham contraído um empréstimo para construir uma casa em terreno que já nos pertencia, a minha compreensão resumia-se ao conhecimento de, perante um empréstimo com prestações progressivamente superiores, ao fim de 20 (ou seriam 25 anos?) os meus pais teriam de pagar 125 contos por mês para satisfazer o banco. Nessa altura pensava eu que até lá ainda nos sairia o totoloto e pagaríamos aquilo tudo. Claro que com 14 anos pouco mais poderia compreender.
Isto para dizer que é, às vezes, complicado entender onde quer o Eduardo Pitta chegar com estas tretas todas. Em 1980 só uma percentagem mínima teria acesso a um crédito à habitação. Vinte anos mais tarde temos que toda a gente, suponho que é isso que ele diz, o consegue.
Sim, é um exagero. Sim, não se entende como conseguem as pessoas contrair tais empréstimos se não sabem de onde virá o dinheiro para a alimentação daí a três meses. Sim, tiram cursos muito giros mas que não os vestem. Sim, os pais continuam a sustentá-los. Tudo isto é verdade. Só que o Eduardo Pitta parece ignorar (ele ignora muita coisa) que as pessoas terão que viver em algum lugar. E, para o fazer, terão que pagar por isso. Por último, parece ignorar ainda que as prestações de um empréstimo são, na maior parte das vezes, inferiores às rendas que tal residência custaria à bolsa de cada um.
Claro que o Eduardo se move num mundo de hóeis de cinco estrelas e de caviar, bem como de almoços no Gambrinus com garrafas de vinho a custarem mais que um almoço de restaurante de uma família de quatro pessoas. Isso pode explicar porque razão ele refere filhos (de outras pessoas) que compram apartamentos de três assoalhadas sem terem emprego. Falta-lhe a imaginação (ou talvez uma vivência) para saber que quem não tem paizinhos que assegurem tal empréstimo não chega a tal crédito. Ou que os bancos podem sempre ir buscar o apartamento, uma vez que em Portugal isso raramente lhes dá problemas.
Regabofe? Talvez, no que diz respeito a crédito para férias no Brasil ou para carros de luxo. Para casas? Caro Eduardo, experimente viver com o orçamento da maior parte da população e diga-nos depois aquilo que consegue de crédito. Nada? Pois, isso é de agora. Mas não foram os desempregados que lá nos levaram. Foram os empregados que comem caviar. Poor Horatio...
sexta-feira, 10 de outubro de 2008
Multitasking carneirista

Fazem-me impressão posts destes. Nunca entendi porque razão pensam tantos comentadores que, perante uma crise, os políticos devem largar todos os outros problemas para se dedicarem àquele. Seria o mesmo que, perante uma epidemia de gripes das aves, os médicos tivessem que esquecer as restantes doenças para se concentrarem nos engripados. Imagino mesmo a cena, com um médico a dizer à grávida, recém-chegado às urgências «Como? Entrou em trabalho de parto? As águas rebentaram há meia hora? Pois, isso realmente é agora tudo muito chato mas vai ter que esperar, é que não sei se sabe mas estamos perante uma epidemia de gripe...».
Além disso, perante o comportamento que se vê dos deputados do PS, votando contra e dizendo que querem votar a favor, numa acção vergonhosa de carneirismo estúpido e queixinhas, penso que prefiro que se entretenham com assuntos destes do que se ponham a pensar na crise financeira. As coisas já estão más que chegue.
segunda-feira, 6 de outubro de 2008
Político de sofá
Deixei há tempos de ler Pacheco Pereira quando me apercebi que não vale a pena. (Suponho que) Pacheco Pereira não gosta de telenovelas, de filmes comercialóides, de futebl, d'Os Malucos do Riso, de música "ró" ou hip-hop, não gosta da blogosfera que ele próprio não recomende, não gosta do PSD que ele não idealize e não gosta do panorama político português ou internacional que ele não caucione. Pacheco Pereira não gosta de pessoas, portanto, o que levanta questões sobre as suas razões para participar na política, arena previligiada para o contacto popular. Quando coloca as fotos de "Retratos do trabalho..." está a ser parvo e hipócrita, porque são fotos apenas e só de pessoas (de quem ele não gosta) a fazer o seu trabalho diário (que ele desprezará).
Pacheco Pereira é um intelectual (provavelmente) meritório. Enquanto político é apenas folclórico. Por isso não percebe os Menezes ou Lopes deste mundo.
PS - da minha parte, caro Tomás, não me sinto porque não há nada para sentir. Pacheco Pereira tem tanta autoridade para falar de uma blogosfera da qual apenas tangencialmente ele faz parte como Mugabe tem para falar sobre a democracia que supostamente o elegeu. Ligar às opiniões de Pacheco Pereira neste aspecto é perda de tempo portanto. E este seu outro post já explica muito sobre quaisquer concordâncias dos políticos com essa opinião.
sexta-feira, 3 de outubro de 2008
Entre preservativos e votos
Diz o João Gonçalves, citando Rui Ramos, que a República de 1910 seria «repugnante para os dias de hoje». Até pode ter razão mas, isto vindo (usando palavras de outros) de alguém que admira abertamente a figura e obra de Salazar, só pode fazer rir.
Por outro lado, iluminada monarquia que passa o poder apenas para primogénitos, passou por períodos de absolutismo e deixava os golpes de bastidores serem efectuados a fio de espada. Isso já não seria repugnante, suponho. Seria até cavalheiresco.
Entendamo-nos, a República nasceu mal e torta. Só que o regime de então não foi uma consequência, antes foi um sintoma, algo que sucederia independentemente de termos um presidente eleito ou um rei nascido. Entre um diletante escolhido entre o povo ou outro escolhido por um óvulo temperamental, prefiro o primeiro. Até porque muitos dos defensores do segundo têm o mau hábito de não usar preservativo.
terça-feira, 30 de setembro de 2008
Os liberais, o mercado e os sofredores
O que me tira do sério nas argumentações dos liberais de serviço da nossa praça é esta noção que é necessário deixar o mercado funcionar, mesmo que isso castigue os investidores e gestores que arrastaram as suas empresas para os buracos em que se encontram.
O que eles não parecem entender é que não vão ser os investidores e gestores, que retiraram salários, bónus e dividendos milionários da gestão ruinosa que vão sofrer. Quem sofre com tudo isto são aquelas pessoas que colocaram o seu dinheiro nos bancos esperando que dali não saísse. As mesmas pessoas a quem foi dito que não o colocassem debaixo do colchão porque ali não rendia. As pessoas, portanto, que esperavam que os bancos cumprissem a sua função principal: em troco de uma quantia, garantir que o dinheiro depositado está seguro.
É isto que os liberais não entendem ou, bem pior, é a isto que não ligam. E não sei o que é pior: se a estupidez, se a imoralidade.
quarta-feira, 17 de setembro de 2008
Um subprime de confiança

Confesso que não sou especialista em mercados financeiros, nunca li Adam Smith e Hayek para mim só a Salma. Ainda assim, ao ver a crise nos mercados financeiros americanos, fico com a mesma sensação que (quase) toda a gente neste mundo: deixados aos seus próprios desejos, os operadores financeiros seriam capazes de arrastar o planeta económico para o abismo.
Hoje, ao ler o Rui Ramos (RR) na sua coluna semanal no Público e o editorial do José Manuel Fernandes (JMF), dois baluartes do liberalismo económico no país, só posso horrorizar-me. Se um diz mata, o outro diz esfola. RR faz passar a tese de que a melhoria das condições económicas no mundo só surgiram precisamente porque os bancos puderam aplicar as práticas de subprime agressivas que provocaram esta crise. Ou seja: a crise, no fundo, foi provocada por todos nós, que beneficiámos do crédito barato. Depois diz, e JMF concorda, que a intervenção da Reserva Federal americana foi um mau sinal, foi intervencionismo estatal que só vem prejudicar os mecanismos de auto-regulação que o sacrossanto mercado aparentemente possuirá.
JMF diz mesmo no fim «a passagem por um processo de falências, fusões e reestruturações poderá ser saudável se, no fim, se melhorarem as práticas de gestão e nunca faltar liquidez para o mais importante: continuar a emprestar dinheiro às empresas ou indivíduos que têm projectos sólidos, inovadores e geradores de riqueza», como se deixar o mercado entregue a si mesmo permitisse a cura de todos os males, qual lagartixa a que cresce nova cauda.
Isto até talvez seja verdade. Sinceramente que não sei. Mas também não me faz qualquer diferença que o seja ou não. Não são as «empresas ou indivíduos que têm projectos sólidos, inovadores e geradores de riqueza» que são prejudicadas. São antes os clientes e pequenos accionistas das outras empresas, as Lehman Brothers e os AIG's que vão sofrer, antes e depois. São aqueles clientes que, não recebem bónus da empresa onde trabalham, apresente esta lucros ou não. São os clientes que, todos os dias, produzem algo para lá de dinheiro. São os clientes que vão perder as suas casas e as suas poupanças e que vão ser traídos pelas instituições em que confiaram.
Tanto quanto vejo o crédito, este surge como dando um adiantamento financeiro a pessoas que trabalharão a produzir produtos, algo de necessário à sociedade. Estas pessoas, com o seu trabalho, pagam depois esse adiantamento, com um extra para compensar quem emprestou. Até aqui tudo bem. Não foi por aqui que o sistema caiu. O sistema caiu porque as instituições de crédito decidem depois jogar ao monopólio, investindo o dinheiro que têm e que foi depositado por outras pessoas e o dinheiro que não têm, que esperam vir a receber no futuro das pessoas a quem emprestaram dinheiro. Isto sim, causou o colapso. E aqui não têm as pessoas beneficiárias de crédito a mais pequena responsabilidade.
Comenta RR no fim da crónica: «E se este mundo, desigual e inviável, tivesse sido o melhor mundo possível para a maioria de nós? Não, caro leitor, este mundo não era o "deles", era o nosso, era o seu. Não pergunte por quem os sinos dobram». Ao puxar este argumento, RR relembra a fábula do escorpião e do sapo. Nós somos o sapo. "eles" são o escorpião. Infelizmente, "eles" safam-se no fim. Nós somos os únicos envenenados e afogados. O nosso crime? A confiança.
O bom cristão, o mau ateu e o feio agnóstico

O Tiago de Oliveira Cavaco prova, com este post, que para impressionar um cristão baptista não interessa muito a substância, basta o estilo.
O texto que ele cita é do Alexandre Soares Silva, o qual escreve bem mas raramente diz coisa com coisa, apenas tem um estilo tremendo. Não o transcrevo, para isso bastam os links. Apenas esclareço.
O ateísmo nada tem a ver com coragem ou cobardia, antes terá a ver com certezas e aceitações. No tal assalto, o ateu sabe que pode morrer ou viver. Não quererá morrer, presume-se, mas sabe que, cedo ou tarde isso irá suceder e que não existe um "depois" para ele se isso suceder. Ou seja, o ateu não teme a morte, apenas a possibilidade de não continuar a viver.
Já o crente tem um medo diferente. Existe, para ele, um "depois" da morte. Só que é esse "depois" que faz toda a diferença. Terá sido generoso o suficiente. Terá respeitado os outros e rezado muito. Será que Deus lhe vai perdoar aquele pecadilho dos 14 anos quando se masturbou com a imagem da senhora Idalina, professora de matemática, na cabeça? Tudo isso lhe passa pela cabeça enquanto não sabe vai para o Céu, o Inferno ou fica a purgar os pecados. Isso aterroriza qualquer um. Não só tem medo de não continuar a viver como tem medo de morrer.
Temos ainda o agnóstico, esse sim, o cobarde indeciso. Não tem tomates para decidir o que quer, aquilo em que acredita e vive num "sim, mas..." quando qualquer amigo, crente ou não, lhe fala em religião. O agnóstico teme não continuar a viver, teme morrer por não saber o que lá vem e teme morrer por temer que até venha alguma coisa. São estes aqueles que desatam aos berros no assalto. Já o Alexandre, sumponho que estaria a rezar terços em velocidades supersónicas, porque aquela devoção à Monica Belucci não vai bem com a moral católica (embora Tiziano e Boticelli pudessem discordar).