domingo, 13 de julho de 2008

O estragar de um mito


19 anos depois de Spielberg ter colocado o Dr. Jones na sua última cruzada com o pai, Indiana regressa com o filho que desconhece e o velho amor Marion Ravenwood para uma aventura que mistura uma agente parapsicóloga ucraniana/soviética, agentes duplos, um velho amigo meio tresloucado por caveiras de cristal aparentemente magnéticas e que acaba com seres extraterrestres interdimensionais a destruir pirâmides maias.

Confusos? Pois, é porque é o que filme é. Confuso até à medula. O argumento é um desastre. Uma mistura de The Mummy com The X-Files. Não há um fio condutor, apenas um conjunto de ideias e carradas de piscares de olhos que nada avançam a acção. Também é carradas de referências às capacidades e à idade do Dr. Jones, tudo muito temperado com incredulidade perante a capacidade de uma pessoa tão velha conseguir fazer o que Indiana vai fazendo.

A grande força dos primeiros três filmes da série Indiana Jones foram o argumento, o prazer juvenil dos autores e um suspension of disbelief que se aguentava em duas pernas sem vacilar. Neste filme nada disso é visível, com a principal vítima a ser precisamente o último ponto. O filme começa por colocar Indiana Jones e um velho companheiro de aventuras a serem apanhados por puro acaso por agentes soviéticos na América do Sul enquanto procuravam artefactos indígenas e levados até à famosa Área 51 onde o velho companheiro de Indy se revela como um agente duplo ao serviço dos soviéticos por dinheiro. Apenas neste início se vê ao que vem o filme. A caminho do Nevada, os agentes soviéticos decidem passar pela América Latina, caminho óbvio para todos. Depois acabam por encontrar o Dr. Jones, que por ali anda, apesar de tanto espaço para seguir. Por curiosidade, o Dr. Jones, ainda que seja apenas um arqueólogo, acaba por ter sido um dos cientistas que examinou os restos de extraterrestres em Roswell. Por esta altura, quando Indy escapa a uma explosão nuclear refugiando-se num frigorífico com cobertura de chumbo, que voa pelos ares e aterra a uns quilómetros da cidade a fingir construída para o teste apenas meio atarantado, o conceito de realidade já desapareceu e temos apenas que imaginar que usar o cérebro ao ver este filme é má estratégia.

Uma coisa que ainda vai entretendo são os piscares de olho cinematográficos, com o mais óbvio a ser a entrada de Mutt Williams, o filho de Indiana Jones (embora nenhum deles o saiba) à la Brando, de blusão de cabedal preto e em cima de uma Harley Davidson. Também o piscar de olho aos greasers na cena de luta no diner é óbvia. Pelo meio há um vislumbre da Arca da Alliança e um sem fim de pormenores a lembrar os anos 50. Ainda assim, isso não sustenta um filme. Nos anteriores, surgiam sempre meia dúzia de frases que mereciam ser relembradas. Neste? Nem uma. Uma que seja. Os diálogos são banais e previsíveis, as situações pouco credíveis (agentes soviéticos em perseguição urbana no meio de uma cidade americana em plenos anos 50?, está tudo doido?) e até o desfecho é excessivamente previsível e apenas serve para estragar o mito (Indiana Jones casado?, francamente).

É uma pena. Depois de 19 anos, valeria a pena ver Indiana Jones em novas aventuras, fosse de que maneira fosse. Até o conceito do uso da idade era interessante. Mas nem sequer a escolha de inimigos foi boa. Porquê soviéticos? O segundo filme não tinha precisado de inimigos óbvios, contentando-se com o misticismo da história. Aliás, esse é outro ponto: os anteriores objectos eram místicos que tinham os seus poderes devidos a deuses. Este objecto nada tem de místico, sendo apenas devido a uma raça extraterrestre. Também isso estraga a sensação.

Por fim, temos o ceder da fotografia aos milagres do CGI. Indiana Jones foi feito como um filme de aventuras sujo, rápido, de história simples e credível, sem necessidade de explicações e onde a magia do filme se sobrepõe às fragilidades técnicas. Este não. Foi feito para a geração pós-MTV que dá 10 estrelas aos novos Star Wars porque têm muitos efeitos especiais.

Spielberg, o realizador que não faz maus filmes, fez aqui o seu primeiro. É pena. Espero, muito sinceramente, que seja o último. O último mau filme de Spielberg e o último Indiana Jones. O regresso aos mitos acaba sempre por os estragar.

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